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O pré-ministério de Wall Street

FRANCISCO DE OLIVEIRA

Há uma contradição entre a mensagem de mudança de Obama e a nomeação de figurões de Wall Street para a equipe de transição

NA CONTRACORRENTE da euforia e do otimismo generalizados com a eleição de Barack Obama, cumpre pensar em algumas contradições entre o "sonho" e a realidade; peço antecipadas desculpas pela saturação da "obamania".
Na cultura política norte-americana, forjada por uma simbiose do protestantismo calvinista com "afinidades eletivas" -Goethe "apud" Weber- com o êxito capitalista, no chão de uma nação de imigrantes, ser rico não é uma falta, mas até um sinal de salvação.
Entre nós, como bem o sabia Sergio Buarque de Holanda, mesmo um catolicismo complacente não encontra muitas afinidades entre a salvação eterna e o desfrute das riquezas do mundo.Assim, talvez o anúncio da equipe de transição de Obama não ofenda seus milhões de eleitores.
Mas há uma contradição flagrante entre sua mensagem de mudança e a nomeação de figurões de Wall Street para fazer a transição entre o (des)governo Bush e a esperança obamista. Até porque a periferia, ainda que a contragosto, -Lula: o problema não é só do Bush- terá parte nas soluções que o eleito presidente dos EUA vier a concretizar para resolver a crise -ou prolongá-la.Deve-se desconfiar dos ricos, que não podem morder o próprio rabo nem operar contra seus interesses? Isso é luta de classes de botequim, que os leitores desta Folha não merecem.
A menos que exista entre os nomeados algum Keynes escondido -e a folha corrida deles não deixa a ver nenhuma ponta desse iceberg- e que Obama seja, de fato, uma reinvenção de Franklin Roosevelt, o aristocrata novaiorquino que enfrentou sua própria classe social para reerguer os EUA atolados na mais funda depressão da história do capitalismo e de sua própria história nacional; mas a lista divulgada promete mais do mesmo, pelos breves currículos publicados por esta Folha em 7/11.Dos 17 citados, 11 são diretamente ligados a grupos financeiros da linha de frente de Wall Street.
Não estavam eles entre os barões ladrões que inflaram as bolhas até o recente estouro?Fica patente também que o Partido Democrata preparou-se para uma outra administração Clinton, sob a presidência da chata da Hillary; Obama foi um cavalo azarão. A tão propalada preparação do senador por Illinois pode ter sido um blefe: ele está inteiramente nas mãos dos clintonianos.
Capacidade de ouvir não é capacidade de governar.
Lembra o folclórico governador Valadares, de Minas, que dizia com bom humor ficar "rouco de tanto ouvir".O keynesianismo civil sozinho não conseguiu reerguer os EUA. Foi preciso o "keynesianismo de guerra", na forma das pesadas encomendas do governo rooseveltiano às indústrias bélicas, para a economia norte-americana levantar vôo e manter-se no ar durante os chamados "30 anos gloriosos" até os anos 70.
Obama não dispõe de nada disso: ao contrário, o keynesianismo não funciona numa economia globalizada, porque o poder nacional, mesmo o dos EUA, é limitado pelos constrangimentos da globalização, tanto que os esforços agora são para uma concertação geral de políticas, sobretudo a monetária, entre os principais países capitalistas; e os EUA não estão saindo de uma guerra vitoriosa.
Muito ao contrário, estão quase como no Vietnã: de rabo entre as pernas.E do brevíssimo período, uns dez anos se tanto, da arrogância unilateral da única potência que restou da Guerra Fria, caminhou-se para uma multipolaridade -a aposta de Togliatti, o velho líder comunista italiano- na qual emerge, com destaque, uma nova potência como a China.
Para uma crise global, só uma saída global: mesmo o delírio de Bush e asseclas não conseguiu criar uma guerra global, que era na verdade seu projeto, o Armagedon, e ficou só na destruição do Iraque -então uma próspera economia- e na rematada destruição do já combalido -a ex-URSS havia feito sua parte- Afeganistão.Ninguém deseja uma guerra para resolver uma crise do capitalismo: o último clone de Hitler está saindo de cena.
Melhor seria que o sistema se esvaísse sem a necessidade de um trauma global, mas nem Papai Noel sonha com isso. Assim, é preferível que Obama cumpra suas promessas, o que já seria um otimismo cauteloso ou um pessimismo melhorado (fórmula parecida com o "silêncio obsequioso" da mais que dialética Igreja Católica), que é o desejo quase geral do establishment para o futuro governo de Obama.A ausência de uma teoria sobre o capitalismo globalizado dá lugar apenas a tímidas perspectivas que não vão além de uma semana.
Já vimos esse filme, muito recentemente: o de uma esperança que venceu o medo para depois entregar-se a ele. E, embora os atores possam ser competentes, os resultados das histórias, não dos filmes, que são ótimos, podem ser desastrosos: entre a abertura respeitosa, mas sem esperanças, de um "Linha de Passe" e a tragédia anunciada de "Última Parada 174".

FRANCISCO DE OLIVEIRA , 75, é professor emérito da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP.

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